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sábado, 2 de maio de 2009

"Torna-te quem tu és"


Enquanto esperava no hall do Centro de Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina para assistir ao filme Fire, do bodyboarder havaiano Mike Stewart, perdia-me em reminiscências e considerações sobre a permanência de algumas coisas através dos tempos.

Há 21 anos atrás, quando eu ainda ensaiava as primeiras manobras, Mike Stewart já era unanimidade no circuito profissional de bodyboard. Nove vezes campeão mundial, foi eleito pela revista Surfer Magazine o melhor surfista de todos os tempos, mesmo sendo um bodyboarder. Pergunto-me se não seria o melhor atleta, já que, aos 46 anos, raríssimos esportistas continuam competindo.

Estreando no Brasil como parte da programação do Florianópolis Cine Action, evento que debateu a produção audiovisual de esportes de ação na natureza, Fire, o filme do bodyboarder produzido em conjunto com o cineasta Scott Carter, é antes de ser um filme de surf a biografia poética de Mike Stewart.

Filmada em 16 mm, com imagens feitas nos mais de 20 anos de carreira do atleta - algumas delas feitas pelo próprio Mike, com uma câmera acoplada na prancha - o vídeo levou cerca de 10 anos para ficar pronto. A trilha sonora é basicamente instrumental e muitas das músicas foram mixadas pelo produtor Scott Carter. As imagens passeiam na tela com um fundo sonoro que vai do trash metal ao Time do Pink Floyd, passando pelo reggae e bebendo na fonte da música clássica. Deslocam-se com uma intensidade que oscila entre a fluidez do mar e a agressividade da velocidade, indo do mar ao espaço estrelar até metaforizar o planeta em uma grande placenta humana.

Pensado e repensado, ele aborda a relação do homem com a natureza, sugerindo a descoberta de si mesmo a partir desta integração. Algo como uma expansão de consciência para a conexão com o todo. O filme reflete a concepção filosófica de vida do atleta, descoberta a partir da sua relação com o mar, nas suas próprias palavras: “quando você se liberta dos condicionamentos tem a chance de se conectar com aquilo que realmente é”. Fire é o fogo alquímico da transmutação.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

ESPORTE: muito além da atividade física.

Publicado na Revista Juice - Março/Abril de 2005

Três e meia da tarde de um dia de janeiro nublado. Um dia morno no mais amplo sentido da palavra... Um jovem cuja idade é indefinível em função das marcas de sofrimento estampada no rosto mulato e no olhar que nada vê, está sentado na calçada sobre o seu instrumento de trabalho: uma caixa para engraxar sapatos. Frente à morosidade do dia, a única solução que conseguiu encontrar foi colocar um saco plástico sob a camiseta surrada e inspirar a cola para preencher a falta que sente: de trabalho, de objetivo, de perspectivas. Anda pela calçada completamente sem rumo... refletindo a falta de rumo da sua vida particular. Como meio e fim da viagem: a cola de sapateiro.
E continuou ali, sentado, vendo a vida passar...
E quando dei por mim também estava vendo a vida passar, como um filme, na minha frente. Comecei a questionar-me sobre as oportunidades que a vida nos oferece e lembrei-me do discurso “todo-poderoso” de que ela está aí para todos. Mas a verdade é: as oportunidades estão aí para mim, para você, mas há muita gente que não tem o mínimo de acesso a outros mundos, outras realidades; muita gente que não tem acesso à informação, a cultura e ao lazer. E que talvez, também não esteja muito interessado nisto, porque ele não consegue pensar, pois toda vez que pensa, o estômago ronca e o instinto animal aflora de uma tal forma que se torna capaz de roubar ou até mesmo matar. Nem todos têm as oportunidades que tivemos, nem todos têm o acesso as informações que temos, e nem todos dentre os privilegiados têm consciência disto.
Uma vez li uma entrevista com o diretor de cinema Fernando Meirelles, onde ele declarava que a grande saída para o Brasil são os projetos sociais. Concordei com ele, se não há oportunidades então podemos criá-las. Esporte e projeto social tem tudo a ver!
Colocar a molecada para andar de skate, pegar onda, nadar, correr, enfim, independente do esporte, aumenta a auto-estima e de quebra ainda podemos descobrir um futuro talento esportivo. O grande objetivo não é descobrir grandes atletas, isto é conseqüência, o objetivo maior se centra em dar perspectivas para quem já não as tem, inserindo-as socialmente através do esporte. A partir da prática esportiva, a criança tem sua auto-estima revelada e a possibilidade da descoberta de uma profissão futura, na qual adquirirá reconhecimento social.
O jovem passa a descobrir a existência de outros mundos possíveis, o prazer da prática esportiva, do auto-conhecimento e da auto-estima, o prazer do lazer, do brincar e do grupo social. O esporte abre-se como o caminho para a construção de cidadãos responsáveis pela construção de sua própria história. Conscientes e com coragem de lutar pelos seus objetivos, por suas necessidades. É isso que precisamos, de pessoas com coragem de seguir em frente, com atitude perante a sua própria vida, perante as suas escolhas. Pessoas conscientes de que não basta ter apenas suas necessidades básicas atendidas, pois como o próprio nome já diz: são básicas , essenciais, indispensáveis. Ninguém quer apenas sobreviver, precisamos viver. Porque ninguém quer só ter comida, também queremos e necessitamos de diversão e arte!