Funciona assim: a revista literária virtual Histórias Possíveis resolveu desafiar os leitores enviando uma imagem a partir da qual deveria ser escrito um conto. Eles já faziam isso, mas apenas com palavras. Agora o negócio literalmente mudou de figura.
A imagem da vez foi uma cena de um filme do Jean-Luc Godard, Bonde à Part, de 1964.
Aceitei o desafio e o resultado foi meu conto, "O lado escuro da Alma", publicado na edição 58 da revista.
Para maiores informações sobre como participar clique aqui.
Enquanto se espera pela Alice de Tim Burton, a British Film Institute restaurou 8, dos 12 minutos, da primeira versão do filme, datado de 1903. Dirigido por Percy Stow and Cecil Hepworth, uma Alice totalmente muda dá vida à menina que há 37 anos só existia no papel.
Acabou a semana. Acabaram minhas férias. Acabou o FAM. Depois de uma semana esquentando as cadeiras do Centro de Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina e auditórios adjacentes, fui veementemente convidada a comparecer na vida real.
A 13ª edição do Florianópolis Audiovisual do MERCOSUL contou com uma estrutura bem maior (e melhor) que a dos anos anteriores, um número recorde de países participantes (12) e nada menos que 200 filmes, alguns que ainda não estrearam no circuito comercial e outros que nem irão. O espaço entre a Erva do Rato, filme de Júlio Bressani, que abriu o festival, e Budapeste, o derradeiro, de Walter Carvalho, foi preenchido com uma gama de curtas e longas metragens que iam da animação a documentários. Teve mostra francesa, portuguesa, cordobesa e outras que não levavam o esa, como a peruana e de vídeos feitos por celulares, ou melhor, por pessoas que utilizaram seus mobiles para filmar (Mostra Art.Mov). Também teve bandinha, workshops, lançamentos, homenagens e palestras, tudo para todos os gostos e para quem tinha tempo para ficar lá o dia inteiro (aaah! as férias...).
Mas isso tudo é apenas para situar o leitor (se é que eles existem) no contexto em que assisti Dub Echoes, um dos melhores filmes da amostra, dirigido e produzido pelo jornalista carioca Bruno Natal e com pesquisa de Chicodub.
Plena terça feira à tarde (que saudades das minhas férias!!!) esta que vos escreve deslocou-se para a UFSC para assistir o documentário que conta a história do dub e a sua influência no hip hop e na música eletrônica atual. Surgido na Jamaica nos anos 70, invadiu as sound sistems e conquistou a Europa, local onde é muito mais utilizado, já que no seu berço foi colocado de escanteio. Destacando a bateria e as linhas graves do baixo, utiliza-se do reverb para a propagação ecoante do som.
Dub Echoes não é apenas história, ele esmiúça a técnica e sua utilização, e te faz perceber o quanto este recurso utilizado por músicos (Asian Dub Foundation, Thievery Corporation, Nação Zumbi, só para citar alguns) e produtores do gabarito de Mário Caldato invade o corpo e reverbera na alma. Torna-se uma verdadeira aula com professores mais do que gabaritados como Bunny Lee (produtor e incentivador do falecido King Tubby, o cara que começou com toda a história do dub), Mutabaruka e Lee “Scratch”Perry.
O filme é uma produção independente e levou 5 anos para ser finalizado. Via blog consegui entrar em contato com o Bruno Natal que me concedeu a entrevista que segue abaixo.
Quando e porque você resolveu fazer um filme sobre o Dub?
A idéia surgiu em conversas minhas com o pesquisador Chicodub. Sempre fomos fãs de reggae e música eletrônica e comentávamos o quanto que as técnicas, estética e postura do dub haviam sido encorpordas por outros gêneros, principalmente o drum' n bass. Quando pintou a chance de ir pra Jamaica, por um outro trabalho, decidimos que era a hora decomeçar um filme pra registrar essas conexões, coisa que não havia sido feita ainda.
Você produziu e dirigiu o filme. Que elementos levou em consideração ao escolher o que seria exibido?
Eu e principalmente o Chicodub fizemos uma lista de artistas do nosso gosto pessoal nos quais percebíamos uma forte influência do dub. Somamos a essa lista alguns nomes fundamentais da história desses gêneros e fechamos uma lista dos sonhos. Conseguimos falar com quase todo mundo que estava nela.
Como foi o seu encontro com Lee Perry?
Foi muito por acaso. Tentamos muito falar com ele, desde que começamos o filme, mas sempre desencontrávamos ou nem mesmo conseguiamos contactar sua equipe. Quando ele veio ao Brasil, tentei de tudo e mesmo assim, quando ele soube do pedido de entrevista, negou. O produtor da turnê dele, sensibilizado, nos convidou para ao menos ir ao camarim após o show, para tirar uma foto com ele de recordação. Fui sem câmera, sem a menor esperança de conseguir a entrevista, o produtor tinha inclusive avisado pra não tocar no assunto. Chegando lá, o próprio Lee Perry puxou o papo e nos convidou para ir ao hotel no dia seguinte, antes dele pegar o avião, para falar para o filme. Era tudo que faltava para o filme ficar completo.
Conte alguma história que considera interessante e que não foi para o filme por algum motivo.
O produtor Mario Caldato contou uma história de uma gravação com o Lee Perry na casa do Sean Lennon, para um disco do Beastie Boys, em que o velhinho pegou uma flauta do pai de Sean, usou como baqueta e quebrou o instrumento. Para quem não sabe, o pai do Sean é ninguém menos que John Lennon. Apesar de muito boa, a história não acrescentava nada ao ponto principal do filme.
De que forma o Dub influenciou a música no Brasil? Quem hoje em dia, no Brasil, faz Dub?
O dub chegou por aqui mais como técnica, abordagem de técnicas de estúdio do que como um estilo ou gênero musical. Isso que é interessante, porque a mistura deu liga com muita gente, de Lucas Santtana a Nação Zumbi, CéU, Mombojó. Produzindo dub mesmo aqui no Brasil tem bastante gente boa: Digitaldubs Sound System (que fez atrilha original do filme), Echo Sound System, Buguinha Dub, o americano radicado em SP, Victor Rice, bastante gente.
Você considera o Dub um estilo ou um recurso?
Sem dúvidas, um recurso. Como diz o Marcelo Yuka no filme, "é uma maneira de ver a música".
O filme foi lançado primeiro na Europa. Porque isso? Qual a aceitação do público europeu? Que diferenças você encontra entre esse público e o brasileiro?
Por mais pedante que isso possa soar, pela minha experiência nos festivais europeus com o filme, o público de lá é infinitamente mais interessado. Mais do que isso, por lá eles tem mais noção do trabalho e esforço envolvido para se fazer um filme e tem noção da importância histórica desse tipo de registro. Enquanto por aqui é tudo visto como uma grande excentricidade, parece. Não a toa choveu convites para festivais, selos interessados em lançar e resenhas na imprensa por lá, e por aqui... Bom, nem precisa falar.
Onde o filme tem sido apresentado no Brasil? Como tem sido a aceitação do filme pelo público brasileiro ? Como o grande público pode ter acesso ao filme?
O filme passou no festival FILE aqui no Brasil, numa exibição muito pequena e confusa. Passou também na Bienal de SP dentro de uma seleçãodo Resfest e no FAM, em Florianópolis. Agora tem umas datas no festival In-Edit, em SP e no RJ, vindo em julho. O melhor caminho para ver o filme é mesmo comprar o DVD.
Como surgiu a oportunidade de exibir o filme no Florianópolis Audiovisual do MERCOSUL? O que você achou da repercussão do filme no evento?
A produção convidou. Não sei da repercussão pois não estive no evento.
O cd com A trilha sonora oficial do filme foi lançada este ano em Londres. Quando será lançado no Brasil?
O disco não sairá por aqui.
Como você vê a produção audiovisual independente no Brasil? Como você percebe a aceitação do público em relação aos filmes fora do circuito comercial?
É difícil e existe pouco incentivo. Quem faz, realmente, é por amor.
Enquanto esperava no hall do Centro de Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina para assistir ao filme Fire, do bodyboarder havaiano Mike Stewart, perdia-me em reminiscências e considerações sobre a permanência de algumas coisas através dos tempos.
Há 21 anos atrás, quando eu ainda ensaiava as primeiras manobras, Mike Stewart já era unanimidade no circuito profissional de bodyboard. Nove vezes campeão mundial, foi eleito pela revista Surfer Magazine o melhor surfista de todos os tempos, mesmo sendo um bodyboarder. Pergunto-me se não seria o melhor atleta, já que, aos 46 anos, raríssimos esportistas continuam competindo.
Estreando no Brasil como parte da programação do Florianópolis Cine Action, evento que debateu a produção audiovisual de esportes de ação na natureza, Fire, o filme do bodyboarder produzido em conjunto com o cineasta Scott Carter, é antes de ser um filme de surf a biografia poética de Mike Stewart.
Filmada em 16 mm, com imagens feitas nos mais de 20 anos de carreira do atleta - algumas delas feitas pelo próprio Mike, com uma câmera acoplada na prancha - o vídeo levou cerca de 10 anos para ficar pronto. A trilha sonora é basicamente instrumental e muitas das músicas foram mixadas pelo produtor Scott Carter. As imagens passeiam na tela com um fundo sonoro que vai do trash metal ao Time do Pink Floyd, passando pelo reggae e bebendo na fonte da música clássica. Deslocam-se com uma intensidade que oscila entre a fluidez do mar e a agressividade da velocidade, indo do mar ao espaço estrelar até metaforizar o planeta em uma grande placenta humana.
Pensado e repensado, ele aborda a relação do homem com a natureza, sugerindo a descoberta de si mesmo a partir desta integração. Algo como uma expansão de consciência para a conexão com o todo. O filme reflete a concepção filosófica de vida do atleta, descoberta a partir da sua relação com o mar, nas suas próprias palavras: “quando você se liberta dos condicionamentos tem a chance de se conectar com aquilo que realmente é”. Fire é o fogo alquímico da transmutação.
Nasci em 1976. Joy Division também. Fui escutar sua música muitos anos depois, mas a poesia densa de Ian Curtis e sua melodia mórbida influenciou grandes bandas da minha pré-adolescência, como Talking Heads e New Order. Esta última formada pelos remanescentes do Joy Division após a morte do vocalista Ian Curtis. “Control”, dirigido pelo fotógrafo Anton Corbijn, autor das mais famosas fotos da banda, retrata a vida e o conflito de Curtis até o seu suicídio em 1980. Sim, ele morre no final, e não há problemas em contar, já que acredito que a grande maioria que assiste o filme já vai sabendo o desfecho da história.
“A existência....porque dar importância a ela?” Exprimindo o pensamento de Ian Curtis, é esta frase desesperançosa que dá início a história. Ninguém melhor que um fotógrafo para dirigir um filme sobre um homem afundado em si mesmo, capaz de exprimir seus conflitos apenas através da poesia. A fotografia em preto e branco retrata bem a angústia em que vivia o artista, algo que não era exclusivo dele, mas característico da sociedade inglesa da época, afundada em profunda depressão econômica e desacreditada em qualquer futuro. Era o auge do movimento punk britânico. Sex Pistols, Lou Reed, The Stooges. Era neles que a adolescência britânica apoiava-se. Foi inclusive na saída de um show do Sex Pistols que a Joy Division se formou. Curtis era catártico no palco. Seu olhar parecia oscilar entre uma indiferença sonolenta e um transbordamento de emoções caóticas. Suas letras não protestavam contra a ordem estabelecida, falavam talvez, do reflexo que esta ordem causava em si e com a qual toda a sua geração identificava-se. Era uma lógica subjetiva, não social. Como o filme é baseado no livro de Débora Curtis (esposa de Ian), "Touching from a Distance", ele gira em torno da divisão emocional de Ian entre a família que construiu precocemente, a amante, a música e a epilepsia que o consumia. Esta última chega a ser glorificada como parte de uma performance esdrúxula, como mostra quando ele tem um ataque em pleno show cantando “Dead Souls”. Curtis parecia dominar a sua esposa, da mesma forma que parecia exercer um controle constante sobre suas emoções, através de um não envolvimento com os que o rodeavam. Parecia estar presente apenas de corpo e suas crises poderiam muito bem refletir o extravasamento deste imenso fluxo de sentimentos contidos. Sublimava tudo isto na música, na sua poesia, na sonoridade mórbida, na movimentação freneticamente peculiar do seu corpo. Ian pareceu-me inacessível. Mas isto não importa. A fotografia do filme fala por si só, a trilha sonora escancara, o ator encarnou o personagem de forma assustadora, o filme perturba, considero uma verdadeira obra de arte. CLAP, CLAP, CLAP....