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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Simplesmente Ela



Ontem voltei completamente absorta pelo monólogo “Simplesmente eu, Clarice Lispector”; encenado, roteirizado e dirigido por Beth Goulart.

O cenário, a semelhança física, o texto, a fala ritmada, a iluminação.

A luz acende. Apaga. Quando vai reacendendo é como se abrisse uma sessão espírita (juro que não é deboche, ela realmente “incorpora”) e a atriz, de costas, levanta o braço com um cigarro aceso e o leva em direção a boca. Seu movimento é muito similar aos trejeitos da escritora. Arrepia.
O cenário parece contribuir para o clima de post-mortem. Seu fundo, formado de tiras brancas que, às vezes, pareciam prata ou cristal, remetia a um cenário “além da vida”.

Achei que a peça pudesse beirar a angústia, como sugeriu um amigo. Não era. A única angústia foi criada por um povo que não parava quieto e ficava desgrudando suas coxas de um couro antigo que balançava a cadeira e fazia: nhéc, nhéc, nhéc. Tenso.

O texto disseca Clarice, sua relação com a escrita e consigo mesmo. Em alguns momentos a atenção tem que ser excessiva, e você mergulha mentalmente palco adentro. São os trechos mais subjetivos, que precisariam ser lidos pelo expectador para serem melhor absorvidos. Mas é exatamente a necessidade da atenção excessiva que fornece o clima denso que caracteriza a obra.
A peça é um apanhado de trechos de textos e livros da escritora. Pelo trabalho, Beth Goulart recebeu o Prêmio Shell 2009 de melhor atriz. Nada mais justo.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Conte um conto

Funciona assim: a revista literária virtual Histórias Possíveis resolveu desafiar os leitores enviando uma imagem a partir da qual deveria ser escrito um conto. Eles já faziam isso, mas apenas com palavras. Agora o negócio literalmente mudou de figura.

A imagem da vez foi uma cena de um filme do Jean-Luc Godard, Bonde à Part, de 1964.


Aceitei o desafio e o resultado foi meu conto, "O lado escuro da Alma", publicado na edição 58 da revista.

Para maiores informações sobre como participar clique aqui.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

50 Cent X Simon Reynolds

Tudo bem, vamos lá. Não sei se já começou, se já acabou, nem sei se foi. Deve estar acontecendo o show do 50 Cent na Passarela Nego Querido, aqui em Florianópolis. Chove demais, tá frio, e não tem programa pior para assistir - do que esse tal de 50 Cent - numa baía que pega o vento sul de frente.

Dizem que ele anda mais sociável, precisando de menos seguranças do que um "gangsta" precisaria. Esta no Brasil, em um turne para divulgação de um cd que se chama "Before I self destruction" de 2009, e prepara outro chamado "Black Magic", baseado na soul music de Marvin Gaye e Curtis Mayfield. Não adianta. Adoro black music, qualquer uma, mas tem que ter "Ritmo".

Um show do 50 Cent remete diretamente para um texto do Simon Reynolds publicado na New Statesman em 1986. Crítico musical, Reynolds viveu uma era áurea para a opinião sobre o assunto. Escrevendo para diversos semanários e mensais, redige um texto que mistura o "no limits" de Lester Bangs com a fomalidade sociológica de Deleuze. Como resultado tem-se uma visão social da música, crítica bem separada nos dias de hoje do universo popular (capitalista soa muito chavão).

Bem, o texto. Em "Doente ou Doce: Hip-hop versus Indie Rock" Reynolds coloca o hip-hop como contestando o caminho que ele próprio segue: subir a qualquer preço, esbanjamento, sexo, violência, mulheres. Um gozo constante que camufla o autopreconceito.

Aí a gente começa a entender o porque o DJ do cara, o tal de Whoo Kid, faz declarações como as que fez. O que é difícil de entender são pessoas comprando uma realidade que não lhes pertence, como se fossem símbolo de status e sofisticação.
O que as músicas dizem não cabe a esse meio dizer, basta acessar o google e tirar suas próprias conclusões. Falta swing.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Indagação para o fim de semana

Da afirmação à questão:

"(...) um corpo que se eleva tende à destruição (...)" ???
Hunter S. Thompson, Screwjack

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Com a palavra, Don Juan

Retirado do livro "A Erva do Diabo", Carlos Castañeda


"Quando um homem começa a aprender, ele nunca sabe claramente quais seus objetivos. Seu propósito é falho; sua intenção, vaga. Espera recompensas que nunca se materializarão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem.
Devagar, ele começa a aprender... a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo os seus pensamentos entram em choque. O que ele aprende nunca é o que ele imaginava, de modo que começa a ter medo. Aprender nunca é o que se espera. Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu propósito torna-se um campo de batalha.

E assim ele deparou com o primeiro de seus inimigos naturais: o medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando, à espreita. E se o homem, apavorado com a sua presença, foge, seu inimigo terá posto um fim a sua busca. ... nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de conhecimento. ... Não deve fugir. Deve desafiar o medo ... Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve parar. ... seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. .... Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez de medo, ele adquiriu clareza ... um clareza de espírito que apaga o medo. ...

E assim ele encontra seu segundo inimigo: a Clareza! Essa clareza de espírito, que é tão difícil de obter elimina o medo, mas também cega. Obriga o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente.

E ele é corajoso porque é claro e não para diante de nada porque é claro. Mas tudo isso é um engano, é como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a este poder de faz-de-conta, sucumbiu ao seu segundo inimigo e tateará com a aprendizagem ... até acabar incapaz de aprender de aprender mais qualquer coisa. ... tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos.; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá um momento em que ele compreenderá que a sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim terá vencido o seu segundo inimigo,...
Ele saberá a essa altura que o poder que vem buscando a tanto tempo é seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Seu aliado está as ordens. Seu desejo é a ordem; vê tudo o que está em volta. Mas também encontrou encontrou o seu terceiro inimigo: o Poder! ... é o mais forte de todoso os inimigos. E naturalmente a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque é um senhor.
Um homem que é derrotado pelo poder morre sem realmente saber manejá-lo. O poder é apenas uma carga em seu destino. Um homem desses não tem domínio sobre si, e não sabe quando ou como usar seu poder. ...
... Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido, na verdade nunca é seu. ... Se conseguir ver que a clareza e poder, sem seu controle sobre si, são piores do que os erros, ele chegará a um ponto em que tudo estará controlado. Então, saberá quando e como usar seu poder. E assim terá derrotado seu terceiro inimigo.
O homem estará então, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrará seu último inimigo: a Velhice! Este inimigo é o mais cruel de todos, o único que ele não conseguirá derrotar completamente, mas apenas afastar.
É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciências de clareza de espírito ... um momento em que todo o seu poder está controlado. mas também o momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar. Se ele ceder completamente ao seu desejo de se deitar e esquecer, se ele se afundar na fadiga, terá perdido o último round, e seu inimigo o conduzirá a uma criatura velha e débil. Seu desejo de se retirar dominará toda a sua clareza, seu poder e sabedoria.
Mas se o homem sacode a sua fadiga, e vive o seu destino completamente, então poderá ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra o seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, poder e conhecimento é o suficiente."